ALBERTO AMORIM

Alberto Amorim 19/02/2009
Cientistas marcam e libertam sailfish em Cabo Frio

Em Cabo Frio, cientistas e pescadores esportivos se unem numa missão especial: colocar uma marca eletrônica num sailfish, Istiophorus platypterus, para estudar sua rota migratória e comportamento na água.


Figura 1. Sailfish com marcas convencional e pop-out

Foi o primeiro peixe dessa espécie no Atlântico Sul a receber esse tipo de marca, chamada de pop-up (auto-ejetável). Programada para se soltar do peixe em 60 dias, ela vai à superfície e transmite informações como profundidade e local por onde o peixe navegou para o satélite Argos, que as envia para um computador.

Em janeiro a temporada de pesca oceânica começa a chegar ao fim. Peixes de bico, como marlim-azul (Makaira nigricans), branco (Tetrapturus albidus) e sailfish, que se aproximam da costa brasileira a partir de setembro, agora começam a se distanciar. Para onde vão? Os estudos de marcação tem ajudado a descobrir a rota desses peixes, seu comportamento na água, e informações sobre sua reprodução e crescimento.

As informações são úteis para regulamentar à pesca, com intuito de conservar esses magníficos animais. Afinal a rota desses peixes de bico inclui cerca de 40 países, que discutem em reuniões da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT) o gerenciamento de pesca.

O Projeto Agulhões, financiado pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) e coordenado pelo professor Fábio Hazin da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) com o apoio do Instituto de Pesca em Santos, começou em 2006 a colocar marcas eletrônicas em peixes de bico. Foram marcados dois marlins azuis, um em Canavieiras, Bahia e outro próximo à Fortaleza, e um marlim-branco em Ilhabela, São Paulo (Iate Clube de Santos).

A missão
Ponto de partida: a sede do Iate Clube do Rio de Janeiro em Cabo Frio. Pescadores e pesquisadores se reúnem na lancha Tarpon, do comandante Marco Ribas, às 7h do dia 27 de janeiro. A embarcação navega cerca de 2 horas, se distanciando a mais de 30 milhas (55 km) da costa, equipada para fisgar sailfish. Os pescadores são Marco Ribas, Chris Badsey e Gustavo Lima. Os pesquisadores são o biólogo Bruno Mourato (UFRPE), o engenheiro de pesca Prof. José Carlos Pacheco (UAST/UFRPE), o biólogo Eduardo Pimenta (Universidade Veiga de Almeida-Cabo Frio), a bióloga Priscila Ariane Rocha e o professor Alberto Amorim, do Instituto de Pesca em Santos. Os marinheiros Jorge e Pelé pilotam a embarcação.


Figura 2. Equipe da marcação do sailfish da Tarpon



Figura 3. Comandante Ribas fisga o sailfish


O primeiro sailfish entra na isca, mas acaba estourando a linha 20 lb. Na segunda tentativa, sucesso.


Figura 4. Comandante Ribas traz o sailfish para perto da lancha


Figura 5. Pescadores da Tarpon, Gustavo, Marco e Chris

Marco Ribas traz o peixe próximo ao barco e José Carlos coloca a marca eletrônica.


Figura 6. Pacheco pronto para taguear o sailfish


O pescador Chris segura o peixe por alguns minutos para que a água passe por suas guelras, num trabalho de oxigenação. Livre do anzol e liberado, ele sai nadando com rapidez.


Figura 7. Chris segura o peixe para oxigenação do sailfish

A missão não termina aí. Entusiasmados com o resultado, os pescadores da Tarpon marcam mais um sailfish dia 1º de fevereiro, quando a lancha sai de Cabo Frio de volta para a cidade do Rio de Janeiro.


Figura 8. Comandante Ribas fisga o sailfish do segundo tageamento


Figura 9. Marco domina o sailfish que é trazido perto da Tarpon

Desta vez usam linha 30 lb, que permite trazer o peixe mais rápido próximo à borda, agilizando também sua liberação.


Figura 10. Chris coloca a pop-out e Pelé libera o sailfish


Da fisgada à liberação foram gastos sete minutos.

As informações serão úteis para a tese de doutorado do biólogo Bruno Mourato na UFRPE.


Figura 11. Bruno Mourato na Tarpon com o pop-out

Além de estudar o comportamento, reprodução e crescimento do sailfish, ele quer saber para onde o peixe vai após a desova. “Cardumes de sailfish se aproximam da costa Nordeste do Brasil e Golfo de Guiné, na África, para desovar em meados de setembro ficando na área até março”, explica. “Uma das hipóteses de minha tese é saber para onde vai o peixe após a desova”, acrescenta.

O engenheiro de p esca Prof. José Carlos Pacheco, que participou da marcação dos dois primeiros marlins-azuis, explica que também será importante conhecer em que locais e profundidades o peixe se desloca, para criar regulamentações para diminuir a pesca comercial da espécie. As informações obtidas com o marlim-azul mostraram movimentos mais superficiais no período noturno, com mergulhos diurnos regulares até 100 metros, chegando apenas uma vez a 425 metros.

Segundo o professor Amorim, o sailfish, vendido como agulhão-vela ou bandeira, é o um dos poucos peixes-de-bico da costa brasileira que ainda não tem restrições para a venda. O marlim-azul e o branco têm a comercialização proibida, e se capturados acidentalmente pela pesca comercial, devem ser devolvidos ao mar, se ainda estiveram vivos, ou depois de mortos podem ser trazidos em terra e doados para instituições beneficentes ou de pesquisa. A conservação desses peixes é importante, pois em 1978, os pesquisadores Amorim, Arfelli publicaram os primeiros trabalhos comprovando que o sailfish migra para a região sudeste para desovar. Em 2005 estudos do biólogo Eduardo Pimenta confirmam a desova do peixe em Cabo Frio. A tese do biólogo Bruno Mourato irá complementar esses trabalhos, mostrando para onde vai o peixe após essa fase. Ainda para garantir melhores resultados, mais quatro marcas eletrônicas serão colocadas no nordeste a partir de setembro deste ano, quando o peixe volta à área.


Figura 12. Pacheco, Ribas e Mourato na Tarpon

Embora as marcas eletrônicas sejam mais eficazes no retorno de dados, as marcas convencionais também têm auxiliado as pesquisas. Chamadas de “espaguete”, devido à semelhança no formato, são feitas de “hydron”, material biocompatível usado em implantes humanos. As informações são anotadas numa ficha, que é enviada à Billfish Foundation (TBF), na Flórida. Se o peixe é recapturado, o número na marca o identifica, e a informação sobre a data da liberação é encontrada nos computadores da instituição. Mais de cem mil marcas convencionais foram colocadas em peixes-de-bico em diversas partes do mundo, permitindo registrar seus caminhos pelos mares. Como a taxa de recaptura é de 2% a 6%, mesmo com cerca de 500 marcas colocadas no Brasil desde a década de 70, apenas quatro foram encontradas.

A última encontrada foi colocada pelo pescador Marcelo Saade Rodrigues da lancha Bom de Bico, no dia 14 de novembro de 2008. A posição do “strike” foi 23º 50' S - 42º 50' W.


Figura 13. Marcelo Saade Rodrigues tagueando o sailfish encontrado posteriormente


Figura 14. . Marcelo Saade Rodrigues da lancha Bom de Bico

Rodrigues explica que a profundidade nessa posição é em torno de 190 metros, sendo um lugar muito bom para pesca de marlim-azul no Rio de Janeiro. “Esse peixe foi capturado com uma isca artificial e liberado em boas condições”, lembra-se o pescador. Dia 29 de dezembro, o biólogo Charles Guimarães Neves reencontrou o sailfish marcado, num desembarque feito pela pesca comercial em Cabo Frio. Neves, que é bolsista da Fadurpe, (Universidade Federal Rural de Pernambuco), coleta dados para o Projeto Marlim, coordenado pelo biólogo Eduardo Pimenta e o professor Amorim. “O tempo de permanência do peixe na mesma área por um mês, prova que além de desovar, o sailfish permanece ali se alimentando, provavelmente na área de ressurgência”, explica Amorim.


Figura 15. Charles e Eduardo com a marca encontrada



Figura 16. Charles mostra a marca encontrada

A primeira recaptura de um sailfish com marca convencional, é de um peixe liberado frente ao Rio de Janeiro pelo pescador esportivo, Carloman Maia, (ICRJ) em 19 de dezembro de 1996 e reencontrada por um atuneiro a 120 milhas da Barra de Santos em 16 de fevereiro de 1997.

Liberar e marcar (tag & release) ou apenas liberar (catch & release) são formas de contribuir para o estudo e a conservação dos peixes-de-bico. O pescador Marcelo Saade conta que pesca desde os cinco anos, com as lições do avô Chafik, e sua motivação ao devolver o peixe ao mar é “vê-lo voltar para casa”, diz em tom humorado. Hoje com 30 anos, se preocupa com as futuras gerações, e pratica a conservação, pois quer que seus netos conheçam os maravilhosos peixes-de-bico, cada vez mais raros.

As fotos da segunda marcação foram gentilmente cedidas pelo pescador Chris Badsey.

Apoio: Instituto Pesca, Iate Clube do Rio de Janeiro, Costa Azul iate Clube, Iate Clube de Santos, Yacht Club de Ilhabela, Iate Clube da Barra do Una, Nupec, Vivamar, Museu do Mar e Prefeitura Municipal de Cabo Frio, The Billfish Foundation.



Alberto de Ferreira Amorim é engenheiro agrônomo, doutor em Ciências Biológicas na área de zoologia, Pesquisador do Instituto de Pesca em Santos-SP e conselheiro da SBEEL.


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